Quais são as principais necessidades da rede estadual no ensino e aprendizagem da língua inglesa? Como atendê-las? Como você avalia os projetos propostos diante dessas necessidades?
Na minha opinião são duas as grandes maiores necessidades da rede estadual. A primeira se deve à falta de recursos de que os professores de inglês dispõe. Não há nenhum tipo de livro adotado pelo estado ou pelo MEC, e nem sempre pode-se pedir para que os alunos comprem os livros. Desde a faculdade fui preparado a não depender do livro e muitas vezes, mesmo quando o temos, por melhor que seja, o livro não se mostra adequado a determinadas situações de ensino de nosso contexto e temos que ou fazer adaptações ou simplesmente criar novas atividades.
Não é o livro que faz tanta falta assim, e sim a falta de recursos. Com o livro já temos pelo menos algum material no qual os alunos podem trabalhar e também para que o professor possa expandir e extrapolar as atividades. Sem ele, temos que depender fortemente em outros recursos tais como xérox ou folhas impressas.
Na verdade o único recurso do qual o professor de inglês dispõe com certeza, é o infame GLS (Giz, Lousa e Saliva), o qual também, muitas vezes, se torna escasso, principalmente a saliva.
Mas enfim, como superar essa falta de recursos? Novamente são dois caminhos. O primeiro é o da criatividade. O meu recurso predileto são revistas usadas, em geral estão disponíveis em abundância e as fotos fornecem com riqueza de qualidade e variedade os recursos visuais de que os alunos tanto gostam, temas como roupas e aparência das pessoas ficam até melhor do que se fossem trabalhados com um livro. Um outro recurso é o desenho, funciona muito bem nas 5ª séries, mas não se pode utiliza-los em exagero, temas como presente contínuo (o que está fazendo) e passado simples (o que você fez nas férias) são ótimos para os alunos desenharem. Mesmo o professor, que muitas vezes não tem talento para o desenho, como é o meu caso, pode se valer desse recurso para ilustrar suas aulas. Um outro recurso são as aulas dinâmicas, como jogos e dinâmicas propriamente ditas, além de ser de grande gosto para os alunos também pode proporcionar bons momentos de interação e de comunicação autêntica, preceitos da Abordagem Comunicativa, além de muitas vezes focar na comunicação oral, frequentemente negligenciada por professores e alunos.
Um segundo caminho é a tecnologia. Só o fato de existir um projeto de ensinar inglês com o uso de computador e internet já é um grande passo. Quando digo tecnologia não penso apenas em computadores e na world wide web. Em tecnologia pode-se incluir as revistas que costumo utilizar, jornais, xérox, aparelhos de som, tv, dvd, e modernamente máquinas digitais, data show, entre outros. Nessa coleção incluo também duas pragas tecnológicas que infesteiam nossas escolas e que moram nos bolsos e mochilas de nossos alunos, mp3 e telefone celular. Eu inclusive já tenho uma atividade na qual alguns alunos irão utilizar o celular para me apresentar um trabalho, tenho também outro projeto de mensagens SMS ainda em fase embrionária.
Mas novamente, esbarramos na falta de recursos. A grande diferença aqui é que esses recursos não estão disponíveis apenas para as aulas de inglês, e sim para todo e qualquer tipo de atividade. O aparelho de som por exemplo, é utilizado pelo professor de português, de educação física, de educação artística e é claro por nós professores de inglês com nossas famosas musiquinhas, tendo assim maior possibilidade de estarem disponíveis na escola e, pasmem, funcionando. Ganhamos também na variedade de opções, não mais estamos presos ao GLS, podemos buscar alternativas variadas para nossas aulas. Recursos tecnológicos também são fonte segura de insumo autêntico e significativo para os alunos, seja cultural, seja lingüístico.
No caso dos computadores e acesso à internete especificamente, tem havido um grande esforço dos governos federais, estaduais e municipais para pluralizar o acesso, e que na minha opinião, tem dado certo. Mesmo em comunidades mais pobres, como é o caso da minha escola, os alunos tem uma razoável oportunidade de contato, seja na escola, em casa, na Lan House, ou mesmo em locais de acesso público, como os portais do conhecimento, uma mistura de biblioteca de escola com acesso à internete e de livre acesso também para a comunidade e mantido pela prefeitura de Araraquara. Os alunos não mais dependem de idas agendadas e acompanhados do professor para fazer suas atividades, seja no computador, seja on line.
Outra grande necessidade em relação ao ensino e aprendizagem de língua inglesa na rede estadual, na minha opinião, tem haver com a falta de motivação dos alunos. Salas lotadas, sujas e quentes, carteiras quebradas e desconfortáveis e professores cansados, desmotivados e até despreparados também não ajudam. Mas, o principal motivo creio que seja o desnível metodológico entre o que os professores querem fazer, e muitas vezes o que podem fazer, e o que os alunos querem e se interessam
Novamente então voltamos à primeira questão, a falta de recursos. As soluções são praticamente as mesmas, apenas que, tenho certeza de que os alunos seriam mais motivados se tivéssemos mais e melhores recursos. Não há mais espaço para que o professor chegue na sala de aula e queira passar algum ponto gramatical na lousa. Por mais que os alunos estejam condicionados a isso e a sala coopere, pouco ou nenhum aprendizado significativo será alcançado com essa metodologia.
Nesse sentido a tecnologia tem sido de grande valia para dar significado nas aulas e despertar o interesse dos alunos. Trabalhar com vídeo clips, não somente músicas, é uma atividade extremamente popular entre os alunos. Mesmo a despeito das dificuldades logísticas de se trabalhar no laboratório de informática, tenho obtido bons resultados entre os alunos.
Mas, em uma discussão maior do que esse espaço, temos a questão da metodologia. Sempre procurei trabalhar de forma comunicativa e dinâmica com meus alunos, e, na minha opinião sofro com a falta de costume dos alunos em se trabalhar na sala a comunicação oral a interação entre colegas, muitas vezes se confunde a tarefa de se levantar e fazer uma atividade ou de falar com um colega e acaba virando bagunça. Mas eu insisto, e quase sempre obtenho um bom resultado, mesmo a despeito da bagunça. Mais interessante seria que todos os professores de inglês, e porquê não todos os professores de todas as matérias passassem a trabalhar de uma forma mais comunicativa e dinâmica, visando a compreensão e não apenas a transmissão dos conteúdos.
A falta de interesse dos alunos é ainda mais grave do que a falta de recursos, pois demonstra que estamos falhando em nossa tarefa de ensinar. Há de se buscar novas formas para que os alunos se interessem e compreendam os conhecimentos trabalhados na escola.
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